Na planura imensa e inóspita da Prata, surrado pelo minuano , forjou uma uma raça de homem peliador e valente: O GAUCHO. Ao fazermos a primeira postagem neste blog que trata do Pampa e do Gaucho, da sua saga e da evolução cultural deste povo, nos pareceu que nada seria mais oportuno que republicar o artigo abaixo, da lavra do insigne Historiador, Articulista e Professor VOLTAIRE SCHILLING. E ao faze-lo lhe prestar a nossa homenagem
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O gaúcho Martín Fierro
"Ele anda sempre fugindo. Sempre pobre e perseguido; não tem cova nem ninho como se fora um maldito, porque ser gaúcho....ser gaúcho é delito." - José Hernández - Martín Fierro, 1872
Por onde o olhar se esparrama pelo horizonte lá esta o pampa. Um imenso mar verde que tem suas beiradas no Rio da Prata e seu fim, se é que o tem, na Patagônia, bem mais ao sul. Ao se depararem com seu gigantismo solitário - onde no dizer do poeta Echeverria "nenhum apoio encontra a vista no seu desejo de fixar seu vôo fugaz" -, os argentinos chamaram-no de "deserto". Duas Franças ou mais cabem por inteiro nele. Se por acaso visse o Barão de Montesquieu aquelas planícies desamparadas, desoladas de gentes, de tudo, seguramente as consideraria a topografia ideal para o império do despotismo.
Pampa, a terra do bárbaro
Gira en vano, reconcentra su imensidad, y no encuentra la vista en su vivo anhelo do fijar su fugaz vuelo/ como el pájaro en mar/ Doquier campo y heredades del ave y bruto guaridas, doquier cielo y soledades de Dios sólo conocidas, que é solo puede sondar" - Echeverría -
Contra a plataforma de Sarmiento
Literatura autóctone
Sáinz de Medrano, um emérito crítico, além de creditá-lo como a expressão máxima da literatura autóctone argentina - oposta à importação dos modelos europeus tão em voga no século passado -, disse ser Martín Fierro o herdeiro de uma tradição que remontava ao século 18, à narrativa dos feitos de D.Pedro de Cevallos (o vice-rei portenho que invadiu o Rio Grande do Sul em 1763), descrito por Baltazar Maziel, ou ainda ao "Lazarillo..." de Carrió de
Fierro, o el Cid do Pampa
Gaudério brigão, sempre eriçado em aparar o bote traiçoeiro do índio inimigo, desenhando à faca sua estética belicosa, Martín Fierro era a encarnação do façanhudo. "Sou" lamentou ele, um gaúcho desgraçado, não tenho aonde amparar-me". Indomado e livre como um Ulisses, galopava por tudo metido em correrias e aventuras mil sem mais achar ancoradouro. Sem ter uma Penélope que o esperasse, sem um Telêmaco que o procurasse. "Vou amigo - para onde a sorte me leve", porque "o gaúcho que chamam vago não pode ter querência". Martín Fierro, porta-voz da sua própria história, foi a revivência do el Cid campeador, o caudilho ibérico de mil anos atrás que, também desterrado, saiu a pelejar contra meio mundo na Espanha daquela época. Com ele, com a criação daquele personagem, rapidamente consagrado entre o povo argentino, Hernández quis mostrar a Sarmiento que matando o gaúcho liquidava com uma força telúrica, uma das mais autênticas expressões da liberdade do homem: "Andei à minha vontade", diz Fierro, "qual um mouro sem senhor; foi esse o tempo melhor e em que vivi mais feliz: de medo de outro tutor não mais busquei o juiz"(Canto XIX, 829).
Borges e Fierro
Jorge Luís Borges, apesar de apreciar a obra literária, não entendia a razão dos argentinos fazerem de um desertor, um prófugo, um borracho, um vira-casacas (e, acrescento, um sempre lamentoso mulherengo "perseguidor de viúvas"), um ícone nacional. Além disso, Borges acreditava que aquele tipo de gaúcho queixoso, composto por Hernández, tinha algo de falso, uma antecipação de Carlos Gardel com aquelas suas letras de tango quase sempre chorosas, indignas de um varão gaudério. Se elas fossem de fato pronunciadas frente a um payador - um trovador popular do pampa - Martín Fierro não passaria para ele de um reles maricas. Foram porém essas particularidades - o misto de ternura amarga em meio às durezas - que fizeram com que Che Guevara o tomasse como exemplo: o do macho solto pelo mundo a denunciar as injúrias e responder aos agravos. Mas foi Domingo Faustino Sarmiento afinal, ainda que assombrado pelo fantasma de Martín Fierro, quem ganhou a parada. |
segunda-feira, 6 de junho de 2011
O PAMPA E O GAUCHO AS ORIGENS
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